São Paulo, Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2000
  Cidade precisa de sociedade organizada

Há em São Paulo algo extraordinário que costuma passar despercebido nas comparações


GERALDO ALCKMIN

O aniversário de São Paulo sempre é motivo para lembrar os números relativos às grandezas e riquezas desta metrópole que tem população e economia tão grandes ou maiores do que as de muitos países importantes. Mas há em São Paulo algo extraordinário que costuma passar despercebido nas comparações. É algo que está cada vez mais presente em toda a cidade, desde a avenida Paulista até os confins da periferia, onde tem atuação ainda mais decisiva na vida das pessoas.
Falo da enorme e crescente capacidade de organização social que a população paulistana demonstra ter em todos os níveis e ramos de atividade. Diariamente partidos, sindicatos, associações, grêmios, irmandades, clubes recreativos, culturais, esportivos e de serviços espalham-se e crescem por todos os cantos, unindo pessoas, conquistando confiança, força e, principalmente, legitimidade de representação.

O notável não é o número de pessoas físicas ou jurídicas associadas a essas entidades nem o volume de obras realizadas ou recursos movimentados por elas. Esses números são gigantescos, mas em São Paulo tudo é grande. O extraordinário é o grau de amadurecimento que essas organizações já alcançaram e o impulso que vêm dando à consciência da cidadania. Fica evidente esse salto de qualidade quando se constata que as entidades procuram tratar de questões que estão além dos objetivos para os quais foram criadas.

Por exemplo: associações constituídas para reivindicar casas populares passaram a construí-las em mutirões promovidos pelo governo do Estado. Hoje essas associações também discutem políticas públicas de habitação, saneamento etc. Clubes da terceira idade já não se reúnem apenas para atividades recreativas, mas somam-se a associações de bairros para integrarem-se às lutas locais e engajam-se em campanhas educativas de saúde e de busca de melhor qualidade de vida.

Por outro lado, empresários já não limitam as atividades de suas associações à defesa de interesses econômicos. Hoje elas também são fóruns de debate sobre a responsabilidade social das empresas. Ajudam a gerar recursos para centenas de projetos sociais, muitas vezes desenvolvidos em parceria com outras associações constituídas por moradores da periferia para cuidar de creches ou cursos profissionalizantes.

Assim, ao extrapolar suas atribuições e atividades específicas, as associações paulistanas passam a ser mais que entidades representativas de classe, fé religiosa, profissão ou bairro. São fatores de integração e amadurecimento de toda a sociedade.

As radicais transformações tecnológicas, políticas, econômicas e sociais que vivemos nessa virada de século colocam as grandes cidades em uma dramática encruzilhada: crescer com qualidade de vida, alcançando a condição de capitais de um mundo globalizado ou agigantar-se com favelões miseráveis e doentes.

A diferença fundamental entre um caminho e outro está nas parcerias entre povo e poder público na busca de diagnósticos e soluções para seus problemas. Para que esse trabalho conjunto seja possível, é essencial a existência de sociedades maduras e integradas.

Esse é o grande desafio a ser enfrentado pelos paulistanos. E ele tem de ser vencido de forma equilibrada, deixando de lado preconceitos e radicalismos, trocando interesses imediatos (pessoais ou de grupos) por ideais amplos e permanentes. Assim estaremos no caminho certo e poderemos confiar no renascimento de São Paulo como uma cidade mais justa e humana.


Geraldo Alckmin Filho, 47, médico, é vice-governador do Estado de São Paulo e pré-candidato ao governo municipal pelo PSDB.