POR QUE E COMO DAR ÊNFASE
ÀS ELEIÇÕES PARA VEREADORES
 


Texto que serviu de fundamentação à postulação de pré-candidatura a Prefeito de São Paulo  pelo ex-vereador Chico Whitaker, do PT. Juntamente com este texto foi apresentada a Nota à Imprensa distribuida na entrevista coletiva dada no dia 14 de junho de 1999 pelo Presidente do Diretório Municipal do Partido dos Trabalhadores, pela pré-candidata Marta Suplicy e pelo ex-vereador Chico Whitaker. Esta Nota à Imprensa explica a razão tanto da apresentaçãoda pré-candidatura, como da sua retirada.
 

I - Se o Partido dos Trabalhadores quiser ser fiel aos objetivos de mudança que o fizeram nascer, é fundamental e urgente que faça uma inversão nas suas prioridades eleitorais, dando à eleição para o Legislativo pelo menos a mesma atenção que dá à conquista do Executivo.
Sabemos todos que cabe ao Legislativo, na função que corresponde ao seu nome, deliberar sobre as leis que determinam o que o Executivo deve ou pode fazer, assim como lhe cabe fiscalizar o cumprimento dessas leis pelo Executivo, podendo até cassar o mandato de quem as descumpra. Ele é portanto, numa democracia, do nível municipal ao federal, uma instância decisiva, porque representa a sociedade no seu conjunto.
Essa não é, no entanto, a percepção do eleitorado em geral. Em conseqüência, ele escolhe sem maiores cuidados seu representante nesse Poder. Dessa inconsciência política, aliada à cultura da troca do voto por favores – a perversa corrupção eleitoral que vem sendo agora denunciada - decorre a baixa qualidade ética, política e técnica dos nossos Legislativos. Com isso eles não cumprem com seriedade suas funções, na busca de soluções para os problemas do povo, e não deliberam de forma efetivamente democrática, a partir dos diferentes interesses da sociedade. Ao mesmo tempo, a corrupção se instala impunemente na gestão dos recursos públicos. Vendendo-se ao Executivo, nossos parlamentos se transformam em balcões de negócios e suas decisões são freqüentemente perniciosas para a sociedade.

II - No próximo ano teremos novamente eleições municipais. O Partido, no Município de São Paulo, já prepara a campanha de seu candidato a Prefeito. Mas pouco ou nada se faz ou se discute sobre a campanha para a Câmara, enquanto os candidatos a vereador e seus apoiadores começam a procurar assegurar sua eleição ou reeleição. Assim, tudo indica que repetiremos o de sempre: centraremos toda a nossa atenção na eleição para a chefia do Executivo, com todos os recursos partidários e atividades de campanha voltados para essa eleição; e deixaremos que cada candidato a Vereador cuide de sua própria campanha, com os recursos que obtiver, do modo que considerar mais conveniente, com suas propostas próprias ou do grupo partidário a que pertença. Esses candidatos mais uma vez irão competir uns com os outros, de forma aliás nem sempre coerente com os princípios do partido, pelo uso de procedimentos que igualam os candidatos do PT aos dos partidos tradicionais.
Com isso nossa bancada pode diminuir, dentro da tendência que se verifica desde 1992, e não será coesa. Como conseqüência, se elegermos nosso candidato a Prefeito, ele não contará com uma base parlamentar sólida. Ao contrário, nós o entregaremos à sanha de uma maioria como a que está há anos instalada na Câmara Municipal, eleita em sua maior parte pela compra de votos, pelo uso da máquina administrativa e pelo abuso de um poder econômico construído através da corrupção. A Câmara – e o Prefeito – ficarão à mercê de aproveitadores que chantageiam com o poder do Legislativo em benefício pessoal ou dos grupos que os financiam.
A oposição à Administração Erundina, em sua maior parte, era desse tipo. Já vivemos portanto a experiência do bloqueio do Prefeito pela Câmara. Tanto melhor se no ano 2000 elegermos o Prefeito e conseguirmos aumentar nossa bancada. Mas isso não bastará se não quisermos frustrar as esperanças populares. É preciso que Câmara seja capaz de cumprir suas funções com seriedade e transparência. Não temos o direito de correr novamente o risco de tornar a governabilidade refém das piores práticas do “é dando que se recebe”. Só se justifica lutar para eleger um bom Prefeito se lutarmos com a mesma garra para também eleger uma Câmara decente.
Minha experiência de dois mandatos de vereador – e de Líder do Governo na Câmara - me dá o direito e mesmo o dever de fazer essas afirmações.

III – Mas se é certo que em qualquer disputa eleitoral devemos lutar pela moralização do Legislativo, eleger uma Câmara decente se tornou também, hoje, no Município de São Paulo, uma obrigação indeclinável. Com os escândalos de corrupção que explodem nas administrações regionais e outros setores da Prefeitura, a serviço de objetivos escusos de uma maioria de vereadores, a população finalmente tomou conhecimento do nível de deterioração a que nossa Câmara chegou, e a indignação se generalizou. A opinião pública já não mede palavras: há uma máfia instalada na Câmara Municipal. E não é admissível que a população de uma cidade da dimensão e importância de São Paulo continue a ser vitimada por um banditismo com poder para assegurar sua própria impunidade e a do Prefeito.
Passamos a ter, também, nesta entrada de milênio, o dever de lutar para livrar a cidade de uma Câmara como a atual, que não tem o mais mínimo respeito pela dignidade dos cidadãos de São Paulo.

IV – Ora, essa mesma Câmara, exatamente pelo exemplo claro que nos dá do que uma Câmara não deve ser, nos abre uma enorme possibilidade de atingir esse objetivo. Mas para isso é preciso que nossa próxima campanha eleitoral seja de tipo novo - na perspectiva educativa que deveria conduzir nossa ação partidária – visando uma efetiva elevação do nível de consciência política do povo de nossa cidade, a partir da importância decisiva do voto e do poder do cidadão.
 
Assim, em vez de entrar no jogo da competição entre marqueteiros, precisamos, pelo menos:

1. realizar uma campanha eleitoral unificada, com candidatos a Prefeito e à Câmara Municipal que façam o mesmo discurso, quanto ao programa de trabalho do Partido e quanto ao modo de governar com a participação e a fiscalização dos cidadãos, bem como articulem suas práticas eleitorais;
2. organizar a campanha dos nossos candidatos a vereador como uma campanha coletiva, em que a bancada eleita se comprometa a lutar coesamente, em aliança com todos os demais vereadores que tenham as mesmas preocupações, para que a Câmara passe a trabalhar com seriedade e transparência, assumindo democraticamente sua corresponsabilidade pela solução dos problemas do povo;
3. dedicar um espaço decisivo da campanha diretamente à formação política do eleitorado, a partir do que está agora ocorrendo na Câmara; essa formação deve esclarecer qual o papel e o poder do Legislativo e do Executivo e mostrar a perversidade do “é dando que se recebe” nas relações entre o Prefeito e os Vereadores, dizendo com todas as letras que, além de um bom Prefeito, é preciso eleger uma Câmara decente e livrar a cidade do tipo de vereador que atualmente a domina;
4. convidar todos os demais partidos, de uma forma que não o entendam como uma provocação, a escolher candidatos igualmente dispostos a elevar a qualidade ética da Câmara;
5. deixar bem claro para o eleitor que está em suas mãos efetivar essa virada em nossa Câmara Municipal, e que “voto não se vende, voto tem conseqüências”;
6. levar os militantes do partido a fazer campanha não somente pelos seus candidatos a vereador e pelo nosso candidato a Prefeito, mas pelo conjunto de candidatos do Partido – a Prefeito e a Vereador – bem como a fazer anti-campanhas dos vereadores que hoje envergonham nossa cidade, visando a sua não-reeleição.

V – Dentro dessa perspectiva, é preciso que nosso candidato a Prefeito coordene a elaboração do programa de governo que apresentará aos eleitores, dentro do que já sabemos que deve ser uma administração municipal petista. Mas é fundamental que também promova, dentro do Partido, uma ampla discussão sobre a importância e o papel da Câmara de Vereadores, para que existam condições políticas para realizar esse programa.
Os temas a discutir devem ser, pelo menos: 1) porque é fundamental que São Paulo passe a ter, além de um bom Prefeito, uma Câmara decente; 2) como deve ser feita nossa campanha, dentro dessa perspectiva, e 3) que papel devem ter nossos militantes nessa campanha.
Considero que tal discussão precisa ser realizada ainda neste ano de 1999, para que haja tempo de efetivar todas as mudanças necessárias na prática eleitoral partidária e para eventualmente influir, no mesmo sentido, nas próprias escolhas dos candidatos a vereador dos demais partidos. Dela surgirão necessariamente outras propostas, completando e detalhando os seis pontos acima enumerados.

Chico Whitaker, 14 de junho de 1999


NOTA À IMPRENSA
 

Entrevista coletiva do Vereador Vicente Cândido, Presidente do Diretório Municipal
do PT-São Paulo, da pré-candidata Marta Suplicy e do ex-vereador Chico Whitaker,
em 14 de junho de 1999.
 
 

O ex-vereador Chico Whitaker, procurando exprimir a indignação da população de São Paulo com nossa Câmara Municipal, propôs ao Partido dos Trabalhadores que, nas eleições do ano 2000, fosse dada especial ênfase à eleição para o Legislativo, buscando elevar o nível de consciência popular sobre o que é uma Câmara Municipal, para que se torne possível eleger vereadores que não envergonhem São Paulo.

Para viabilizar essa proposta, o ex-vereador se dispôs a apresentar sua pré-candidatura a Prefeito, para que, pela realização de prévias no Partido, esse tema fosse discutido diretamente com todos os militantes partidários, assim como fosse provocada a reflexão dos demais partidos sobre a Câmara Municipal.

A análise feita pelo ex-vereador, fundamentando sua proposta, foi imediata e integralmente apoiada pelo Presidente do Diretório Municipal e pela pré-candidata Marta Suplicy, igualmente preocupados