Folha de S.Paulo, domingo, 23 de abril de 2000
Ciro é ... Collor?

Nos últimos seis meses, o pré-candidato do PPS falou em público quase 200 vezes, em 105 cidades, e cobrou R$ 6.000 por palestra


MARIO SERGIO CONTI
da Reportagem Local

Não eram ainda 10h da manhã chuvosa de segunda-feira passada quando Ciro Gomes ouviu a pergunta inevitável, encaminhada aos organizadores da palestra que acabara de fazer para mais de mil secundaristas no Teatro Guararapes, no Recife: "O senhor é o próximo Fernando Collor?"

Nos últimos seis meses, o ex-governador cearense falou em público quase 200 vezes, em conferências e discursos em 105 cidades de 20 Estados brasileiros. Na maioria das vezes houve alguém para notar as semelhanças entre o ex-ocupante e o atual candidato ao Palácio do Planalto, já que ambos nasceram no Sudeste (Collor no Rio de Janeiro, Ciro Gomes no interior de São Paulo), fizeram carreira política no Nordeste, foram prefeitos de capitais (Maceió e Fortaleza), governadores (de Alagoas e do Ceará), pertencem à mesma geração (um tem 50 anos, o outro 42), são altos (medem 1m82) e usam um palavreado agressivo contra as elites.

"Como eu, o Collor era um candidato jovem, nordestino e que falava de um jeito franco, direto", respondeu aos estudantes o presidenciável do Partido Popular Socialista, PPS. Inflamando-se mais a cada frase, prosseguiu: "Mas esses não eram os problemas do Collor. Os problemas dele foram a farsa da sua campanha e a corrupção do seu governo. Quem é contra os jovens, os nordestinos e os que falam com clareza está, na verdade, externando três preconceitos. E quem acha que só velhos e paulistas podem ser presidente deve batalhar um terceiro mandato para o Fernando Henrique". O auditório veio abaixo.

Ainda que perseguido pela sombra de Fernando Collor, Ciro Gomes só faz crescer nas pesquisas de opinião pública. Pelo último levantamento do Vox Populi sobre a sucessão de Fernando Henrique Cardoso, ele conta com a preferência de 18% dos eleitores, estando três pontos atrás de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. Segundo uma pesquisa do Datafolha de meados de março, Lula está com 27% da predileção dos eleitores, e o candidato do PPS com 18%. "As semelhanças entre Ciro e Collor são formais e superficiais", diz Marcos Antônio Coimbra, diretor do Vox Populi. Ele enxerga, no entanto, um movimento similar ao do "caçador de Marajás" em 1988 no atual crescimento da popularidade do presidenciável do PPS. "Quanto mais o eleitorado o conhece, mais simpatiza com ele, pois o Ciro representa a vontade de mudança", diz Coimbra.

Tornar-se conhecido é o que o ex-ministro da Fazenda no governo de Itamar Franco vem fazendo. Até as eleições, em 2002, ele pretende ter visitado 300 cidades pequenas e médias, que reúnem 52% do eleitorado nacional. Em suas andanças, Ciro Gomes defende a aliança com o PT e a construção de um governo de centro-esquerda. Prega o fim do modelo neoliberal, a renegociação da dívida externa e a criação de impostos. Acusa a grande imprensa de dificultar a discussão dos destinos nacionais. Defende que a corrupção política é um problema menor e marginal. Ajuda a construir o PPS, partido que já foi comunista e hoje abriga latifundiários e encerra reuniões com os militantes rezando o pai-nosso. Nas horas vagas, Ciro Gomes namora a atriz Patrícia Pillar.

Um político e um partido

Duas salas conjugadas servem de auditório para a sede do PPS em Fortaleza. As paredes são decoradas com retratos do senador Roberto Freire e de Ciro Gomes, resquícios das campanhas presidenciais do partido em 1989 e 1998, e com um mural com as efígies de Marx, Engels, Lênin e Stálin. Na noite de quarta-feira, dia 12, mais de cem pré-candidatos a vereador ali se reuniram para ouvir o presidenciável do PPS, cuja ex-mulher, Patrícia Gomes, disputará a prefeitura da capital cearense nas eleições de outubro. "A prefeitura irá fazer obras de última hora para conseguir votos, mas, se explicarmos claramente aos eleitores o que pretendemos, neutralizaremos o uso da máquina administrativa: temos de politizar a discussão e falar diretamente ao povo", disse Ciro Gomes aos pré-candidatos.

Rompido com o governo de Fernando Henrique Cardoso e com o PSDB, ele se filiou ao partido há pouco mais de dois anos. A sua entrada fez com que o PPS crescesse velozmente, atraindo gente com pouca ou nenhuma identificação com a história do partido. Produto da crise final do stalinismo, cujo símbolo maior foi a queda do Muro de Berlim em 1989, o PPS foi fundado dois anos depois, sobre os escombros do mais antigo partido brasileiro, o PCB, criado, por sua vez, em 1922, sob o impacto da revolução comunista na Rússia. Em Fortaleza, quase não há militantes da velha guarda do "Partidão". Tanto que, na maior naturalidade, a reunião daquela quarta-feira foi encerrada com os militantes rezando o pai-nosso de mãos dadas.

Ciro Gomes, que faz o sinal da cruz quando passa em frente a uma igreja, rezou de olhos fechados. Criado numa família católica, ele nunca foi de esquerda e muito menos comunista. Começou a fazer política no final dos anos 70, quando estudava direito na Universidade Federal do Ceará. Frequentava o grupo estudantil Habeas Corpus, influenciado pela igreja, então dirigida no Estado por d. Aloísio Lorscheider. Seu pai se elegera prefeito de Sobral, no interior do Ceará, pela Arena. E foi com a legenda do PDS, partido de apoio à ditadura que sucedeu a Arena, que Ciro Gomes conseguiu o seu primeiro cargo eletivo, o de suplente de deputado estadual.

No fim de semana passado, o presidenciável foi a Curitiba, onde se realizou o primeiro Congresso Estadual do PPS do Paraná. No vôo, ele leu a Folha, "O Globo" e o "Jornal do Brasil". Só tirou os olhos dos jornais para acompanhar a cena de "O Amanhã Nunca Morre" na qual o agente 007 pula de pára-quedas para um mergulho no mar da China. Ele viaja com uma mala de mão (com cinco camisas, um paletó de microfibra que não amassa e duas calças) e a maleta onde carrega o computador portátil.

À noite, em quartos de hotel, ele se conecta à Internet para trocar mensagens com os filhos e a namorada. Quando se recolhe mais cedo, aproveita o tempo para redigir pequenas crônicas, enquanto saboreia os últimos dos 40 cigarros que fuma diariamente No momento, escreve o roteiro de um filme sobre a ocupação do Acre, tema que o fascina.

"A grande imprensa do Rio e de São Paulo quer fazer crer que a corrupção venceu, que se generalizou pelo país inteiro, para assim desmobilizar a população e afastá-la da política", disse Ciro Gomes na sessão plenária dos congressistas paranaenses do PPS. "Se os paulistas não têm cuidado ao eleger seus prefeitos, se eles acreditam no lema do rouba-mas-faz, os outros brasileiros não têm nada a ver com isso."

O senador pernambucano Roberto Freire, 58, presidente nacional do partido, falou um pouco de corrupção no seu discurso ("Paulo Maluf ainda não está na cadeia por responsabilidade da Justiça, porque faz muito tempo que ele rouba") antes de tocar no assunto que mais o interessa: a missão do partido. "Sem bazófia, o encontro de Ciro com o PPS é um dos fatos mais relevantes da política brasileira neste começo do século 21", disse. Para o senador, que entrou no PCB em 1962, quando estudava direito no Recife, o PPS tem um objetivo estratégico: forjar a aliança de centro-esquerda para atingir o poder, governar o Brasil e reformar o Estado. Ele e Ciro Gomes entendem que, nessa aliança, cabem o PT, o PDT, o PC do B, o PSB, o PV, e setores do PSDB e do PMDB.

Ciro Gomes e Roberto Freire viajaram de Curitiba para Cuiabá no jato Lear 24, de seis lugares, do empresário Pedro Muffato, donode uma fazenda de soja no norte do Mato Grosso e da TV Tarobá, de Cascavel, e da TV Londrina, ambas no Paraná. Durante o trajeto, os dois tentaram convencer Muffato a disputar a Prefeitura de Cascavel pelo PPS. O empresário não aceitou o convite. "No que puder, ajudo o Ciro a chegar à Presidência, mas não quero ter cargo nenhum", explicou.

Latifundiários de esquerda

Passava de 13h, e os termômetros roçavam a marca dos 40 graus centígrados, quando o jatinho aterrissou em Cuiabá. No Paraná, quase toda a direção estadual do partido é oriunda do PSDB, e, tucanamente, apóia o governo de Jaime Lerner, do PFL. Já no Mato Grosso, é difícil diferenciar o PPS do PFL, seja pela composição social de seus líderes ou pelos seus métodos de arregimentação política. O partido nem bem foi criado e já está organizado em 129 dos 140 municípios do Estado. Ele conta com um suplente de senador, quatro deputados estaduais e nove prefeitos, a maioria recém-saídos do PFL.

Ciro foi levado do aeroporto direto para o Hotel Fazenda Mato Grosso, onde se realizava o encontro estadual da legenda. Ele foi saudado por 1.500 pessoas, grande parte delas vestindo camisetas com os nomes do deputado estadual Humberto Bosaipo e do suplente de senador Blairo Maggi, que pretendem chegar ao governo do Mato Grosso em 2002 pelo PPS.

Dono de dois latifúndios que usam tecnologia avançada, Blairo Maggi é o maior produtor de soja do Brasil. Humberto Bosaipo tem uma fazenda de gado em Barra do Garça e bastante força política na Assembléia Legislativa, um parlamento que, com apenas 24 deputados, emprega 600 funcionários, muitos deles presentes no encontro estadual do PPS. A reunião do partido em Cuiabá custou cerca de R$ 50 mil. Maggi e Bosaipo racharam as despesas, que incluíram o almoço para os 1.500 participantes, o aluguel do hotel fazenda, o fretamento dos ônibus que trouxeram filiados das cidades vizinhas, além das faixas, panfletos, bandeiras e cartazes.

Ciro Gomes foi aplaudidíssimo quando proferiu as duas palavras finais de seu curto discurso de saudação aos militantes mato-grossensses: "Vamos almoçar!" O grosso da multidão correu para a fila do bandejão. A direção do partido foi para uma sala menor, com ar-condicionado. Um senhor de ar pacato, cabelos e bigodes grisalhos, Salomão Malina, 76, observava a tudo com atenção. Presidente de honra do PPS, ele entrou no PCB em 1942, combateu na Segunda Guerra Mundial, passou quatro anos no exílio e viveu todas as crises do partido.

Malina perdeu a mão direita em 1967, um dia antes de começar o 6º Congresso do PCB, feito na clandestinidade. Se a polícia invadisse a casa onde ele se realizava, alguns militantes jogariam nela granadas de fabricação caseira, para garantir a fuga de Luiz Carlos Prestes, o secretário-geral do partido. Malina, que durante a guerra fez um curso de uso de explosivos organizado pelo Exército norte-americano, foi encarregado de testar as granadas. Uma delas explodiu uma fração de segundo depois de arremessá-la.

Salomão Malina não receia que o PPS se descaracterize com a entrada de Ciro Gomes nas suas fileiras. "O partido viveu uma situação semelhante nos anos 30, quando Luiz Carlos Prestes entrou no PCB", avalia. "Enquanto ele era o Cavaleiro da Esperança, o líder da Coluna Prestes, o nosso partido era pequeno, e um se adaptou ao outro, e o PCB cresceu." A adesão de Blairo Maggi e Humberto Bosaipo ao PPS também não o atemoriza. "Engels era filho de um dos maiores industriais da Alemanha, Lênin vinha de uma família da pequena burguesia e o pai de Trótski era dono de terras: a política que um homem defende é mais importante que a sua origem social."

Roberto Freire concorda com Malina. "Não escondo de ninguém, fazendeiro ou não, de onde venho e o que penso", diz o senador. "Quem quiser vir conosco que venha, mas saiba que nós queremos mudar o Brasil." O deputado e fazendeiro Bosaipo, egresso do PFL, não achou problemas na convivência com militantes que foram líderes do PCB. "Descobri agora que os comunistas são como a gente: eles também gostam de ar-condicionado, mulher bonita e avião a jato."

 

Discurso inclui ataques à "elite canalha" e à grande imprensa

Na segunda-feira passada, Ciro Gomes viajou novamente no jato de Pedro Muffato, dessa vez de Cuiabá para Recife. Naquela noite, ele se reuniu com professores universitários ligados ao PPS no hotel em que estava hospedado, o Canariu's, na praia de Boa Viagem. Acordou às 6h de terça-feira, tomou uma xícara de café preto e foi ao estúdio da Rede Globo para dar uma entrevista ao "Bom Dia Pernambuco". Dali, seguiu para o encontro com os secundaristas no Teatro Guararapes. Como a palestra era para estudantes, Ciro Gomes falou de graça. Ele cobra R$ 6.000 reais líquidos, além das despesas de transporte aéreo e hospedagem, para fazer conferências em sindicatos patronais, fóruns de executivos e entidades empresariais. Recebe entre R$ 25 mil e R$ 30 mil por mês pelas palestras.

O ex-governador é um orador de fala rápida e bem concatenada, que às vezes soterra a audiência com cifras e estatísticas. "Ele tem um poder de síntese notável, eu levaria duas horas para dizer o que ele fala em cinco minutos", diz Fernando Lyra, ministro da Justiça no governo de José Sarney e hoje filiado ao PPS. "Pode até ser que o povão não entenda todos os números que o Ciro solta num microfone, mas às vezes ele diz "elite canalha", que acorda a platéia e faz com que ela o considere corajoso."

Aos secundaristas, Ciro Gomes disse duas frases que encaixa em todos discursos. A primeira: "Eu não sou um salvador da pátria, nem os problemas brasileiros serão resolvidos por um homem só, num passe de mágica". A segunda: "O Brasil não precisa de Ciro Gomes nem de Lula. O Brasil precisa de um projeto político. Um projeto que nasça de uma discussão popular, na base, entre as forças de centro-esquerda".

As medidas de Carla Perez

Ciro Gomes saiu do Teatro Guararapes para a Rádio Jornal, onde conversou ao vivo com três jornalistas no programa de Geraldo Freire, o radialista mais popular de Pernambuco. "A imprensa do Rio e de São Paulo barra o debate nacional", atacou logo de início. Para ele, a grande imprensa é porta-voz do poder econômico e busca desqualificar quem propõe alternativas políticas e econômicas. "Somos chamados a opinar sobre as medidas da Carla Perez, o que é um modo de trivializar e espetacularizar a política", disse o candidato na churrascaria Spettus, na qual 300 militantes e simpatizantes do PPS se reuniram para ouvi-lo durante o almoço.

Ele não teve tempo de comer, tantas eram as pessoas que queriam trocar idéias ou tirar fotos a seu lado. Deu-se por satisfeito com duas pequenas xícaras de caldo de feijão e foi para o aeroclube do Recife. Embarcou num bimotor Carajá de Rui Dias, dono do hotel Canariu's, um empresário amigo de dirigentes do PPS pernambucano, e levantou vôo rumo a Garanhuns, no agreste.

O PPS tem força em Pernambuco: cerca de 5.000 militantes, 65 vereadores, dez prefeitos, um deputado estadual, dois federais e dois senadores. Uma carreata o aguardava no desembarque em Garanhuns. Ele percorreu a cidade numa camionete, fez uma palestra no auditório da Rádio Jornal e voltou ao aeroporto. Tinha pressa em chegar a Caruaru. Iria dali para Nova Jerusalém, o teatro ao ar livre onde Patrícia Pillar encarnava Maria na representação da "Paixão 2000". Mas não pôde levantar vôo: já escurecia, e a pista do aeroporto de Caruaru não tinha luzes. Ciro Gomes, Roberto Freire e o vereador Waldemar Borges viajaram numa camionete do senador Carlos Wilson.

Eram 18h, hora em que começava a "Paixão", quando Freire e Borges desceram em Caruaru, e o presidenciável seguiu viagem até Nova Jerusalém. No caminho, o celular tocou. Era o seu filho do meio, Ciro, 15. Ele queria conversar sobre o presente de aniversário. Ciro Gomes disse que pensava em lhe dar um tênis, notou o desapontamento na voz do filho e perguntou o que ele esperava ganhar. O garoto queria uma câmera de vídeo. "É muito caro", disse o pai e mudou o assunto para trigonometria, matéria em que Ciro não tinha tirado boa nota na última prova. Ele acabou topando receber o tênis. A filha mais velha do ex-governador, Lívia, 16, estuda numa escola americana na Itália. Ciro e Yuri, 12, vivem com a mãe. O nome do caçula é uma homenagem do candidato ao astronauta russo Yuri Gagarin, o primeiro homem a ser lançado em órbita e a dar a volta na Terra.

A peça começara, mas Maria ainda não entrara em cena, quando Ciro Gomes chegou a Nova Jerusalém. Com 70 mil metros quadrados, nove cenários, e mais de 500 pessoas trabalhando, entre atores, figurantes e técnicos, a "Paixão" é um dos maiores espetáculos do Nordeste. Uma média de 5.000 mil pessoas assiste à peça todas as noites durante a Semana Santa. Foi a segunda vez que Ciro Gomes viu a representação, e a primeira na qual Patrícia Pillar trabalhou. Passava das 23h quando o candidato jantou no refeitório dos atores com a namorada. Até então, ele se mantivera com a xícara de café preto da manhã, o caldo de feijão do almoço e uma barra de chocolate no começo da noite.

Ciro Gomes era governador quando leu uma entrevista de Patrícia Pillar na qual ela dizia que os dois políticos de sua predileção eram ele e o paranaense Jaime Lerner. Telefonou a ela para agradecer e disse que gostaria de conversar quando ela viesse ao Ceará. A atriz, cuja irmã Denise mora em Fortaleza, o procurou. Passaram a se falar com regularidade. Ele deixou o governo do Ceará em 1994, convidado por Itamar Franco para assumir o Ministério da Fazenda, vago com o pedido de demissão de Rubens Ricupero. Nessa época, ele estava casado com Patrícia Gomes, e ela com o músico Zé Renato, do Boca Livre, o que não impediu que se aproximassem mais e mais.

Uma vocação e uma paixão

Fernando Henrique Cardoso foi eleito presidente no final de 1994 e chamou Ciro Gomes para uma conversa. Disse-lhe que poderia escolher um ministério, mas que ele gostaria de nomeá-lo ministro da Saúde. O ex-governador agradeceu o convite e disse que iria manter o seu plano de passar um ano nos Estados Unidos, na Universidade Harvard. O presidente eleito insistiu e Ciro Gomes explicou que a estadia no exterior tinha motivação íntima e familiar e revelou-lhe uma segredo que não contara nem a seu melhor amigo na política, Tasso Jereissati: estava apaixonado por Patrícia Pillar, sua mulher sabia e queria ficar um ano fora para tentar salvar o seu casamento com Patrícia Gomes. Dez dias depois, Joyce Pascowitch noticiou na sua coluna na Folha que ele estava namorando a atriz. Até hoje Ciro desconfia que o presidente espalhou o que ele lhe contara em confiança.

"O Ciro parece aquele boneco da propaganda da pilha: ele tem uma energia que não acaba", diz Patrícia Pillar, 36. "Quando o assunto é política, então, ele não consegue sair da conversa. Nunca conheci ninguém com uma vocação tão grande." Depois do jantar, o político e a atriz dançaram até as 2h num forró. Às 7h30, Ciro estava de pé. Tomou um aviãozinho e foi para Serra Talhada, depois para Arararipina e em seguida para Petrolina.

Enquanto Ciro Gomes cruzava os céus de Pernambuco, Tasso Jereissati almoçava em Brasília com Fernando Henrique Cardoso. Numa entrevista no mês passado à revista "Época", o presidente colocou Ciro Gomes entre os seus adversários irreconciliáveis, argumentando que ele o acusava com termos impróprios, e se queixou de Tasso, dizendo que ele desaparecera da cena política nacional.

O almoço foi cordial e proveitoso de parte a parte. Fernando Henrique e o governador cearense concordaram que era preciso que os líderes tucanos conversassem mais amiúde, para contrabalançar a influência do PFL e do PMDB na aliança governamental. Por líderes tucanos, eles se referiram, nomeadamente, ao governador Mário Covas e ao ministro José Serra. Tasso tomou a iniciativa de dizer que não via por que o presidente hostilizar Ciro a ponto de inviabilizar uma conversa com ele. O presidente retrucou que o presidenciável é quem não lhe dá trégua. Mas falou isso sem rancor, numa referência de menos de dois minutos num almoço que durou mais de duas horas.

Ciro Gomes não tem planos de conversar com o presidente ou de recuar em suas críticas ao governo. Ele só mudará sua atitude em relação a Fernando Henrique caso ele apóie Tasso Jereissati na sucessão presidencial. "Se o Tasso concorrer, perderei quase que toda minha motivação para entrar na campanha", diz Ciro Gomes. O presidenciável quer, isso sim, ficar cada vez mais próximo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Hoje, domingo, ele tem viagem marcada para os Estados Unidos. Ficará uma semana em Nova York e voltará direto para uma reunião com Lula e o deputado José Dirceu, o presidente do Partido dos Trabalhadores. "Há quem diga que é impossível se eleger presidente sem o apoio do PFL", afirma Ciro Gomes. "Eu acho que isso é possível; o que é impossível é governar sem o PT."
(MARIO SERGIO CONTI)

Questionário Proust

Na Inglaterra vitoriana havia um divertimento de salão chamado "Confissões", no qual os participantes respondiam a uma série de perguntas pessoais. Em homenagem ao autor de "Em Busca do Tempo Perdido", que gostava do jogo, a brincadeira é conhecida hoje pelo nome de "Questionário Proust". A seguir, as respostas de Ciro Gomes. (MSC)

Folha - Qual a sua idéia de felicidade perfeita?
Ciro Gomes
- Viver em paz com pessoas em paz.

Folha - Com qual figura histórica se identifica?
Ciro
- Gandhi.

Folha - Qual a pessoa que mais admira?
Ciro
- Tasso Jereissati.

Folha - Qual a sua característica mais marcante?
Ciro
- A determinação.

Folha - Qual a sua característica mais deplorável?
Ciro -
A ansiedade.

Folha - Qual a característica que mais deplora nos outros?
Ciro
- A intolerância.

Folha - Qual a sua maior extravagância?
Ciro
- Fumar.

Folha - Qual a sua viagem predileta?
Ciro
- Percorrer o interior da Itália.

Folha - O que lamenta não ter feito?
Ciro
- Não ter aprendido saxofone.

Folha - Qual o maior amor da sua vida?
Ciro
- Meus filhos.

Folha - Onde e quando foi mais feliz?
Ciro
- Em Fortaleza, no final dos anos 80, quando fui prefeito.

Folha - Qual a sua maior realização?
Ciro
- Ter aumentado a matrícula escolar das crianças cearenses de 63% para 97% no meu governo.

Folha - Se pudesse voltar à vida como outra pessoa, quem seria?
Ciro
- Juscelino.

Folha - Qual a qualidade que mais admira num homem?
Ciro
- A lealdade.

Folha - E numa mulher?
Ciro
A lealdade.

Folha - O que mais valoriza nos amigos?
Ciro
- A lealdade.

Folha - Quais os seus escritores favoritos?
Ciro
- Gabriel García Márquez, Rachel de Queiroz e Alberto Caieiro, o heterônimo romântico de Fernando Pessoa.

Folha - Quais os seus heróis de ficção preferidos?
Ciro -
- Super-Homem e Luke Skywalker.

Folha - Quais são os seus heróis na vida real?
Ciro
- Patativa do Assaré e Nelson Mandela.

Folha - Como gostaria de morrer?
Ciro
- Na cama, bem velhinho. Ou de maneira violenta, defendendo algo muito importante.

Folha - Qual é o seu lema?
Ciro
- É preciso fazer o melhor possível e se conformar com o resultado.