O
Diretório Nacional do Partido Popular Socialista PPS,
reunido nos dias 9 e 10 de novembro de 2002, em Brasília,
resolve aprovar a seguinte Resolução:
As últimas eleições para a renovação da Presidência da
República, dos governos estaduais, para senadores, deputados
federais e estaduais, aprofundaram o processo democrático
brasileiro, que se iniciou com a anistia em 1979 e seguiu com a
derrota do regime militar e eleição de Tancredo Neves em 85, a
convocação da Constituinte e a aprovação da nova Carta Magna
em 1988 e a conquista das eleições diretas, fatos históricos
que contaram com a nossa participação. Seus resultados
expressaram a esperança do povo brasileiro por mudanças, que
possam colocar o país no caminho do desenvolvimento
sustentável, afirmar a sua inserção soberana e competiva no
mundo, superar as imensas desigualdades sociais e o quadro
extremo de pobreza, nos marcos da estabilidade, do fortalecimento
do regime republicano, do aprofundamento da democracia e do
respeito às diferenças que caracterizam o nosso povo.
Realizadas em clima de liberdade, e balizadas por um governo que
se caracterizou por uma postura democrática, elas transformaram
profundamente o quadro político nacional: além de
proporcionarem a vitória de Luis Inácio Lula da Silva à
presidência da República, alteraram a correlação de forças
entre os partidos políticos e ampliaram significativamente a
presença das formações de esquerda nas duas casas do Congresso
Nacional. Pela primeira vez na história da República, as
forças consideradas de esquerda ultrapassaram a barreira de 1/3
da representação na Câmara dos Deputados, credenciando-se, com
seu pluralismo, como pólo de interlocução poderoso para operar
negociações parlamentares de interesse da sociedade.
O PPS participou com orgulho dessa festa democrática, elegendo
15 deputados federais, 41 estaduais e distrital, uma senadora,
dois governadores e obtendo cerca de 10 milhões de votos para
presidente da República. Cumprindo as cláusulas de barreira
transitórias, e com 3,1 % dos votos válidos para deputado
federal e superando o índice de 2 % dos votos em 13 estados da
Federação, o partido se prepara para atender as cláusulas
definitivas, que entrarão em vigor em 2007. Se o nosso
desempenho não foi melhor - e para isso concorreram, entre
outros aspectos, os erros de campanha e a fragilidade da
organização -, não temos dúvida, alcançamos uma importante
vitória política.
Se a vitória foi de todos os nossos militantes, publicamente
ressaltamos o papel nela desempenhado por Ciro Gomes, que muito
contribuiu para o crescimento do PPS na sociedade, e pelas
dezenas de companheiros que disputaram mandatos em todo o
território nacional a todos eles o nosso reconhecimento.
Àqueles que não conseguiram a reeleição, a nossa
solidariedade e a convicção de que continuaremos fortalecendo o
partido em todo o Brasil. Temos uma grande e decisiva jornada em
2004, quando pretendemos lançar chapas competitivas, de prefeito
e vereadores, em todas unidades municipais da federação, com
atenção especial para as capitais e grandes e médias cidades,
inclusive ampliando a presença das mulheres no processo
eleitoral. Dirigentes, parlamentares e militantes,
indistintamente, estão convocados a participar deste esforço,
cuja mobilização deve ser iniciada imediatamente.
A histórica vitória de Luís Inácio Lula da Silva, que também
é a vitória de um amplo campo político que ajudamos a
construir, contou com o apoio irrestrito do Partido Popular
Socialista no segundo turno, não provoca impactos apenas no
cenário nacional. Também o faz em escala mundial, acentuando
que a esquerda tem possibilidades reais de gerar projetos capazes
de articular uma nova hegemonia no processo de globalização,
mais includente e democrático. Ajuda a tensionar um debate, na
América e nos demais continentes, de modo a mostrar que a
esquerda pode continuar a ter o seu projeto de valores, que
aponte para um mundo de igualdade, fraternidade e justiça. A
esquerda, por definição, não pode se converter em
administradora passiva de uma questionável ordem mundial
pré-existente.
Entretanto, o sucesso da nova administração ainda é uma
expectativa. No plano interno, não podemos desconsiderar o forte
desequilíbrio que nos acompanha há décadas e as demandas
sociais represadas, que carregam em si explosivo contencioso a
ser resolvido. Do lado internacional, preocupa-nos o
recrudescimento da crise econômica, a emergência em nova escala
do terrorismo, o cenário de conflitos em várias regiões, com
destaque para o Oriente Médio, e a evolução da direita em
países influentes, em particular nos Estados Unidos, que
poderão entrar em contradição direta com o recado dado pelas
urnas no Brasil.
O sucesso da gestão Lula, porém, é uma possibilidade real. Mas
isso só ocorrerá se, a par da ousadia necessária, o novo
governo se pautar pelo realismo e contar com um bem equacionado
apoio político. A questão da governabilidade, nesse contexto,
se coloca como um objetivo a ser buscado com determinação.
De ante-mão, e sem qualquer pré-condição, o novo governo,
hoje com profundo grau de identificação com os interesses
majoritários da sociedade, contará com a nossa cooperação e
apoio político, no Congresso e na sociedade. Tal postura
responsável faz parte da tradição política que nos é
própria, verificável em toda a marcha de consolidação da
democracia brasileira. Uma possível participação no governo,
de ampla coalizão democrática, deverá levar em conta níveis
de inserção do partido que expressem compartilhamento de
responsabilidades.
O PPS lutará para
que o governo Lula desenvolva uma nova forma de fazer política
em nosso pais, tendo como pano de fundo a mais ampla tolerância
democrática e a perspectiva de mudança de modelo de
desenvolvimento e as reclamadas reformas estruturais e
políticas, bandeiras que sempre estiveram no centro da
concepção mudancista do PPS. A esquerda, liderando um bloco de
forças amplas e heterogêneas que se articulam desde o centro,
tem uma excelente oportunidade histórica para começar a
encerrar um longo período de hegemonia dos setores
conservadores, que infelicita o nosso povo há séculos. E esta
oportunidade, se não queremos frustrar milhões de eleitores e
de brasileiros, não deve e não pode ser desperdiçada.
Temos convicção, a construção do PPS no país não depende da
sua participação no governo. Esta marcha é independente e
autônoma. Portanto, em qualquer relação que venha a ser
estabelecida no futuro com a administração Lula, o
fortalecimento da identidade do partido constitui-se tarefa
central nesta nova etapa que o país inaugura.
E esta identidade se fortalecerá ainda mais agora com o
aprimoramento de nossa atuação parlamentar e com as
perspectivas que se abrem a uma colaobração efetiva entre o
partido e os nossos governadores eleitos, tendo como questão
central o estabelecimento de uma política diferenciada sobretudo
para a Amazônia.
Também se afirmará com uma maior inserção partidária nos
movimentos sociais das mulheres aos trabalhadores; da
juventude ao mundo da cultura; do movimento negro aos setores
populares mais pobres; do estudante à dona de casa; do
empresario identificado com os interesses nacionais ao cientista
que amplia as fronteiras do conhecimento e que encontra
soluções para os candentes problemas brasileiros e da
humanidade.
Temos consciência de que estamos contribuindo para mudar o
Brasil. E com a nova conjuntura que se abre, as nossas
possibilidades de contribuição são muito maiores.