ESPERANÇA E VIDA REAL

Ciro Gomes

Publicado no Jornal do Brasil no dia 30 de setembro de 1999

 
Se observarmos o Brasil à luz de uma matriz fria de desenvolvimento, teremos razões de sobra para não perder a esperança de que, algum dia, acharemos nosso caminho em direção à prática do ideal que sempre freqüentou nosso imaginário coletivo: um Brasil progressista, justo e culturalmente exuberante diante da admiração do mundo!

Se olharmos lá de trás, até os bicudos tempos atuais, contemplaremos sintomas generalizados e graves de que estamos fracassando como civilização. Em verdade a contradição é desafiadora ou desanimadora, conforme o ponto de vista ou a atitude.

A natureza nos ofereceu uma das maiores províncias minerais do mundo, um terço da água potável do planeta, auto-suficiência em abastecimento de petróleo, metade do estoque de terras férteis ainda desocupadas na Terra, um clima que nos permite produzir o ano inteiro de região a região. E a maior biodiversidade do mundo se encontra em nossas fronteiras.

Há também uma obra humana que nos permite imaginar que a estrada do verdadeiro progresso não precisaria começar na estaca zero: somos já/ainda a 15ª economia industrial do planeta, temos, na ponta entre os países em desenvolvimento, uma sofisticada plataforma siderúrgica, uma petroquímica mais que razoável, a matriz energética mais limpa e barata de origem hidráulica no mundo. Temos um sistema financeiro moderno, uma elite gerencial muito hábil - quem duvidar vá ver o que acontece hoje na Rússia, onde toda uma geração acima dos 30 anos está engatinhando em noções básicas de contabilidade de custos.

As alegrias que nos dá o futebol são um eloqüente sintoma de que temos uma gente a quem se dando oportunidade, é capaz de qualificar-se em excelente conta em qualquer obra do gênio humano. Temos uma comunidade técnico-científica respeitável, tanto mais se levarmos em conta o baixíssimo investimento que tradicionalmente dedicamos à ciência e à tecnologia.

Os sintetizadores mais sofisticados do mundo trazem em sua programação o samba e a bossa nova, sintomas espasmódicos de um gênio cultural que, para além da música, ousa em muitas outras expressões de nossa arte e de nossa identidade.

Há muitos outros argumentos para chutarmos para longe esse sentimento de frustração e rendição cultural que assola amplos setores de nossa elite, ou a ponta de terror que espeta o coração de nosso povo trabalhador quando pensa no futuro de seus filhos.

Mas, além dos problemas ancestrais, um momento terrível oprime e quase desanima os que observam o Brasil de hoje, ou são obrigados a conviver diariamente no contexto dos bairros pobres das grandes cidades ou nos sertões e regiões mais inóspitas.

Do passado restam sempre obstruídos os acessos das maiorias à terra para produzir, ao trabalho e salário dignos, à saúde e seguridade social, à educação, cultura e informação, afora outras interdições lamentáveis. No presente, uma mistura perversa de recorde de desemprego, depressão na massa de salários (salário mínimo de 70 dólares!), desmantelo generalizado dos serviços públicos essenciais a quem não pode pagar plano de saúde, mensalidade escolar ou vigilância privada; recorde de falências e concordatas, recorde de inadimplência... e, por cima de tudo, ao cair da noite, pela televisão, a notícia infame da roubalheira, do privilégio, da impunidade.

O Brasil atualmente tem visto piorar o mais chocante de nossos indicadores sócio-econômicos: temos a pior distribuição de renda do planeta! Entre nós, os 10% mais ricos acumulam quase a metade de toda a riqueza do país!

Como compreender e superar contradição tão brutal? Onde a explicação para tanta miséria em meio a tanta opulência?

O instinto popular tem a pista certa quando execra o gênero político, mas precisa saber que o remédio para a má política não é a não-política e sim a boa política. O que claramente tem falhado e merece ser responsabilizado por esse estado de coisas é o arranjo político institucional do país, é a obra humana incapaz quando modela e opera a máquina pública com corrupção, preguiça, incompetência e subserviência a interesses de minorias ou de poderosos do estrangeiro.

O que vale é que temos de volta a democracia e, com ela, a oportunidade ciclicamente renovada de começarmos de novo. É preciso crer nisso, senão a realidade cruel e antiga mata a esperança e... sem esperança não vale a pena viver!

Que seja, entretanto, uma esperança lúcida e militante...