| São Paulo, quinta-feira, 10 de fevereiro de 2000 |
| Ira OTAVIO FRIAS FILHO Problemas é o que não falta à maior cidade do país, fruto de um desenvolvimento rápido e impensado demais. As gestões Maluf e Pitta, somadas ao dilúvio de escândalos revelados em 99, simplesmente multiplicaram a percepção de que o descalabro chegou a limites intoleráveis, terminais. O paulistano deverá ser, portanto, um eleitor movido pela ira. A dúvida é saber que tipo de "mensagem" eleitoral será capaz de vencer a descrença generalizada e converter tanta irritação em votos. Os diversos laboratórios de manipulação publicitária já estão debruçados sobre esse desafio. A situação de Marta Suplicy, que lidera com 31%, é boa, mas não tranquila, como parece crer a própria candidata. Beneficia-se por ter as mãos limpas (nunca exerceu cargo executivo) e pela frustração feminina na última eleição, quando muitas mulheres deixaram de elegê-la por apostarem nas chances de Covas. O eleitorado parece desejoso de recompensá-la agora. Mas ela ficará longos meses exposta ao sol e à chuva, vítima de ataques sórdidos que, até em razão do espírito sexista de sua candidatura, dificilmente pouparão sua vida pessoal. Marta é capaz de despertar o que há de pior no machismo. A injustificável candidatura Erundina é outro obstáculo em seu caminho. A ex-prefeita, aliás, parece decidida a repetir, com o PT, exatamente o que Orestes Quércia fez no passado com o MDB, quando este ainda era um partido sério. Sem ser corrupta, Erundina está corroendo a esquerda em São Paulo. Geraldo Alckmin, o respeitado vice de Covas, por enquanto tem, como se diz na política americana, "mais do que uma chance, menos do que uma esperança". A imagem atual do governador e seu próprio temperamento reservado, impróprio em eleição majoritária, tampouco o ajudam. Resta Maluf, a própria imagem de um estilo de administração -autoritário, desumano, irresponsável, vulgar, numa palavra: fascistóide- que veio coroar o horror urbano fabricado por décadas de crescimento caótico. Mesmo depois de tudo e depois de Pitta, 20% dos eleitores ainda "amam" Maluf. Que Maluf concorresse seria o ideal
tanto para São Paulo como para Marta. Para São Paulo, a
fim de que ele possa justificar a última "obra de
Maluf", esse fantoche que hoje finge governar a
cidade. Para Marta, porque ela o colocaria, e ao
patriarcalismo que ele representa, no banco dos réus. Otavio Frias Filho é diretor de redação da Folha de S. Paulo. |