| São Paulo, Segunda-feira, 07 de Fevereiro de 2000 |
Não há sociedade
insolúvel
LUIZA ERUNDINA Tudo em São Paulo assusta, seu tamanho revelado pelo crescimento demográfico e pela extensão da área construída. Sua dinâmica econômica e social apresenta números que intrigam. Como governar essa metrópole, terceira maior do mundo, cujas características fazem com que seja única? É preciso reconhecer São Paulo a cada dia, como ensina o professor Milton Santos em seu importante livro "Por uma Economia Política da Cidade" (ed. Hucitec), em que discute estatísticas e propõe uma reflexão inovadora. A linguagem dos números é apenas intrigante. O problema é descobrir os mecanismos infernais de sua lógica, de modo a propor e a construir uma outra. Ainda segundo nosso mestre, São Paulo está presente em todo o território nacional e é lugar de fortes relações internacionais. É seu aparato técnico, que se renova a cada dia, que permite o salto exigido pelo presente: do internacional para o global e deste para o local, com todas as suas vicissitudes e perversidades. As consequências desse processo sobre a cidade e toda a região metropolitana são exemplares. Para tanto a ação das multinacionais é decisiva. É por isso que as decisões políticas de interesse do país precisam ter a participação do povo e das lideranças do município de São Paulo. Sua importância na dinâmica das relações sociais e econômicas, que se constróem a cada dia no Brasil e com o mundo, explicam o peso da macrometrópole. Ainda segundo o professor Milton Santos, poderíamos propor o conhecimento da nova lógica da cidade a partir do lugar -espaço do acontecer solidário-, compreendendo o que são os lugares especializados, estimulados pela demanda internacional que exige infra-estruturas cada vez mais eficientes, modernas e necessárias para fazer funcionar, no lugar, a economia global. Em São Paulo esse espaço é representado pelo centro, pela av. Paulista e por novas ocupações das marginais. Os lugares complexos são aqueles em que muitas atividades se desenvolvem, fazendo apelo para as sucessivas adaptações do meio técnico e científico, deixando fluir naturalmente a vida e a função metropolitana. Assim vamos construindo uma compreensão inovadora sobre o funcionamento do território, ainda não incorporada pelos que pretendem governar São Paulo. Falo de território municipal como espaço efetivamente vivido. Logo, falo também de cidadania. É importante destacar algo pouco percebido, não apenas por governantes, mas também por urbanistas: a necessidade de compreender, de vivenciar a cidade, essa imensa totalidade funcional, incorporando o território na construção da cidadania, governando a partir dele. Assim, o que ocorre na cidade de São Paulo é o uso corporativo do seu território pelos interesses hegemônicos: os espaços especializados de Milton Santos ou os rígidos de Ortega y Gasset. Alia-se a essa compreensão a existência de um sistema político que reflete um mosaico de governos, criando, assim, fronteiras que contrapõem a divisão municipal à divisão territorial. O coração da região, basicamente representado pelo centro expandido de São Paulo, é o espaço preferido da acumulação e de sobrevivência de muitos. O preço do metro quadrado, as densidades técnicas existentes fazem desse espaço objeto de cobiça de todos. Dos interesses hegemônicos, pela possibilidade de acumulação, e do povo, pela oportunidade de dele usufruir por meio da economia informal, dos serviços de rua e outras formas de sobrevivência. Essa nova cidade perde a relação com o sistema político-administrativo, pois parcializa-se e ocupa-se apenas do espaço do interesse hegemônico. A periferia, alma e motor dos espaços complexos, fica à mercê do acaso ou de um acerto da história. Essa nova visão do funcionamento da cidade sugere aos candidatos a construção de uma proposta de gestão que compreenda a nova lógica da cidade e que crie instrumentos eficientes de gestão. O lugar é o espaço do acontecer solidário. Solidariedade que precisa ser apropriada por uma gestão que queira resgatar a dignidade da cidade. São Paulo não pode mais ser compreendida como metrópole industrial, mas como um centro mundial de serviços. Esse fato é responsável pela mudança radical da vida da cidade e por sua crise. Rompe-se o pacto capital/trabalho do período da industrialização. A segregação e as desigualdades na cidade se ampliaram. A inserção dos pobres e dos ricos dá-se de forma diferente a cada dia. Os primeiros sobrevivem como podem na metrópole, seja na economia informal, na ilegalidade, na marginalidade. Já os ricos volatilizam-se: usam helicópteros para locomover-se e defendem-se nos condomínios fechados. Temos assim uma cidade dilacerada, fraturada e fragilizada. É preciso que o território seja incorporado às novas formas de governo. A seletividade, no território, de usos e espaços só agravará as imensas desigualdades existentes. A estabilidade da sociedade não se dá pelo equilíbrio da balança de pagamentos. A cidade é um imenso capital social construído a duras penas pela maioria, que cada vez menos usufrui dos seus benefícios. A dívida social continua enorme. É
necessário destinar a maior fatia do orçamento para
atender as demandas sociais, diminuindo as desigualdades.
Foi o que fizemos em nosso governo. Tive a honra e o
privilégio de governar São Paulo. Conheço bem seu
cotidiano, desafios, desigualdades e problemas, que
muitos dizem ser insolúveis. Não há cidade insolúvel,
pois não há sociedade insolúvel. Salve São Paulo! Luiza Erundina de Sousa, 65, é
deputada federal pelo PSB-SP e pré-candidata ao governo
municipal. Foi prefeita de São Paulo (1989-92). |