| São Paulo, quinta-feira, 06 de abril de 2000 |
| O paradoxo Mangabeira
Ciro simpatiza com a idéia de o conselheiro usar a campanha paulistana como palanque de agitação de sua própria marcha rumo à sucessão presidencial, em 2002. Afora esse discreto apoio, porém, o desconhecido Mangabeira vem sendo pouco mais do que candidato de si próprio, alvo de divertido ceticismo entre os políticos. Não é de agora que eles procuram folclorizar-lhe as idéias e o perfil, no que têm contado com a ajuda inequívoca da própria vítima. De uns tempos para cá, Mangabeira parece ter concluído que a folclorização está destinada a ser sua porta de ingresso na política local, que ele frequenta, como um cometa, há duas décadas. Ele tem percorrido bairros da periferia pobre com seus ternos de protestante, seu sotaque americano e suas poses napoleônicas, na tentativa de atrair atenções da mídia e acumular um ativo eleitoral que permita a Ciro Gomes impor seu nome como candidato do PPS à Prefeitura de São Paulo. Tudo muito implausível, como se vê. O Brasil é um país que costuma importar seus modelos e valores a título decorativo, ou seja, sem que existam aqui as condições necessárias para sustentá-los. O caso Mangabeira configura a inversão desse fenômeno, a importação, por assim dizer, da importação, como se ele fosse o avesso das "idéias fora do lugar". Nascido no Rio, filho de pai americano
e mãe descendente do clã baiano de seu sobrenome,
Mangabeira passou a infância nos Estados Unidos,
adquirindo o sotaque do qual só uma lobotomia poderá
livrá-lo. Passou a adolescência no Brasil e voltou aos
Estados Unidos, onde realizou sua meteórica carreira
universitária. Isso pode não significar nada, mas mostra a diferença de percepção nos dois países. O paradoxo aumenta porque Mangabeira vem ensinar os brasileiros a se rebelar contra o modelo ... americano, vem para levantar-nos de nossa letargia secular, para propor uma revolução que não se baseia em nenhum modelo externo. Ele não estava por aqui nos momentos cruciais de nossa história recente, o que lhe retira autoridade. A implantação de suas teses ou será utópica ou demandará uma energia mobilizatória que somente seria viável em meio a um experimento autoritário. Mesmo assim, seus paradoxos encerram, de cabeça para baixo, o enigma do Brasil. Otavio Frias Filho é o diretor de redação da Folha de S. Paulo |