MARCHAR É PRECISO

Ciro Gomes

Publicado no Jornal do Brasil no dia 26 agosto de 1999

 
Desemprego recorde, depressão da massa de salários, desmantelo nos serviços públicos que são renda indireta para as maiorias, privatizações feitas irresponsavelmente, maior inadimplência da história, recorde de falências e concordatas, e, por cima de tudo, notícia infame da roubalheira, do privilégio, dos bilhões doados a bancos falidos enquanto se negam tostões ao financiamento das mais simples questões do povo. É... não faltam razões para protestar neste país. O Brasil está na oposição! O Brasil quer oposição!

Mas o Brasil, dói-me reconhecer, não confia oposição que tem. Identifica-se com ela na ética da crítica, mas não avança para reconhecê-la como força legítima para alternar no poder. E aí o debate fica capenga, a evolução de nossa história obstruída, o império da desesperança se amplia. Por quê?

O brasileiro não consegue confiar na opo-sição que tem porque nos vê divididos, sem projeto hegemônico, presos a uma ação rea-tiva e quase sempre ocupados exclusivamen-te em chamar o povo para protestar sobre o leite derramado e invariavelmente motivados pela. homenagem aos interesses corporativos, nem sempre defensáveis. Presentemente até mesmo um inesperado viés pouco respeita-dor da institucionalidade democrática se introduziu na retórica oposicionista, na simplificação dos slogans, como se houvesse alguma respeitabilidade na pseudo-radicalização de um "Fora fulano".

Não que o protesto não seja legítimo, necessário e democrático. Ao contrário, diante do desatino e da irresponsabilidade do atual governo é preciso protestar, devolver ao povo o sentido da participação, ocupar as Praças e ruas do país e fazer crescer ao máximo a expressão da repulsa popular ao resultado cruel da política econômica suicida, da interlocução política vergonhosa e da arrogância e alienação do atual presidente. O que não podemos em nenhuma hipótese é mobilizar as gigantescas energias populares para frustrá-las em seguida com a ausência de uma agenda construtiva. A batalha da crítica está ganha. Só os néscios e os arrogantes do mundo oficial ainda não viram que restam poucos na defesa desta quadra de governo, repartidos entre os privilegiados e entre os partidários formais, estes iludidos ainda com uma improvável reversão de tendências definitivamente ruinosas.

Estamos perdendo, entretanto, e feio, a batalha intelectual que semeie a percepção de que temos uma alternativa crível, realizável, consistente macroeconomicamente, obediente ao realismo fiscal, para pôr no lugar do que está aí. O discurso simplório do "Tudo pelo social", além de surrado e visível na boca de tudo quanto é político de tudo quanto é partido, não se demonstra realizável ao mais inocente dos seus ouvintes enquanto não construirmos respostas práticas para o saneamento das contas públicas, para a recuperação da capacidade do Estado brasileiro financiar qualquer tarefa mais elaborada, seja na confrontação da tragédia social, seja no enfrentamento do desafio produtivo, seja até mesmo na recuperação de nossa autoderminação nacional em constrangimento internacional poderoso.

Salvo uns poucos para quem a esperança não está perdida ou ainda alguns muito zangados que se dispõem a ir às mas apenas protestar sem questionar nada, a maioria do país sofre calada e perplexa essa mistura de inconseqüência oficial e vazio de propostas para qualificar a crítica. "Não tem jeito", "As coisas são assim porque não há alternativa", "A globalização é injusta, mas nosso país não tem condição de resistir a ela", "Está-se fazendo o possível". "Qual é a alternativa?". Estas perguntas e outras no mesmo rumo são a retórica oficial replicada pelas elites interesseiras, a base simbólica para explicar a generalizada prostração moral e intelectual dominantes na sociedade brasileira.

Felicito, sem me sentir confortável em participar, aqueles que organizaram a "Marcha dos 100 mil". Espero que ela possa transcorrer com grande êxito, em clima de paz. Mas renovo aos companheiros da oposição meu apelo já insistente: passado o protesto, o país espera, clama de nós, que imediatamente nos entreguemos ao debate de um Projeto nacional de desenvolvimento alternativo que nos unifique, que interrompa democraticamente este itinerário de tragédia sócio-econômico-cultural em que estamos mergulhados, e que devolva aos brasileiros a esperança- a e a confiança de que podemos ser uma nação onde valha a pena trabalhar e produzir.

Se não, vai ficar sempre fácil nos desqualificar como "sem rumo"...