Uma questão de identidade: Ciro Gomes e o PPS

Marco Aurélio Nogueira

Jornal da Tarde,
São Paulo,
out. 1999

Já se falou muito a respeito da passagem de Ciro Gomes ao primeiro plano da política nacional e é bem provável que se continue a falar. Não ocorre o mesmo, porém, com o crescimento vertiginoso de seu partido, o PPS, que lucra diretamente com sua ascensão e visibilidade.

O partido tem motivos de sobra para comemorar a explosão orgânica que o está acometendo. Anos atrás, poucos diriam que ele conseguiria ir além do ponto a que chegara o PCB, sua casa de origem. Hoje, o PPS exibe números que não só incomodam muita gente como podem, se bem interpretados e aproveitados, garantir-lhe um sólido lugar ao sol nos próximos anos.

Seus dirigentes e militantes parecem preocupados. Sabem que o partido está crescendo na mesma trilha que impulsiona Ciro Gomes, enfiada entre a captura do PSDB pela direita e a paralisia propositiva do PT. Sabem, portanto, que a próxima fase não será fácil, até mesmo porque o governo FHC ainda dispõe de algumas "reservas" operacionais e a oposição ainda não mostrou suas armas. Mas como fazer para dar substância à expansão atual, sendo ao mesmo tempo fiel à herança do Partidão e receptivo aos desafios do terceiro milênio? Sem isto, o partido tenderá a se converter numa versão menos rasteira do tradicional pragmatismo político. Ciro Gomes pouco agrega em termos de militância orgânica (isto é, comprometida com uma prática, uma "disciplina" e um ideário) e inflaciona o partido de heterogêneos aderentes de última hora: cria, com isto, para o PPS, o desafio adicional de ter de fornecer uma "educação", um discurso e uma cara aos novos inscritos.

É por isto que o grande problema deste PPS em expansão é o da identidade. No início da década, quando o partido decidiu "descontinuar" seus vínculos com o PCB e adotar um novo perfil, o problema já havia aparecido. Que partido seria aquele que não queria mais ser "comunista" e optara por se chamar "popular socialista"? O PPS ficaria à esquerda não tanto pelas opções que tomaria a partir de então, mas porque estava vivo demais o seu vínculo com a história do Partidão. Agora, o partido está novamente diante da necessidade de dar um rosto a si próprio, algo que seja convincente tanto para "dentro" quanto para "fora" de suas fronteiras.

O partido faz questão de dizer que deseja encarnar a "opção de centro-esquerda" que as oposições abandonaram e o PSDB jamais chegou a postular. Mas não vai muito além disto; persiste numa posição imprecisa, declarando-se distante tanto do conservadorismo quanto do neoliberalismo e favorável à constituição de um amplo bloco democrático. Pouco tem feito, também, para recriar e fortalecer as relações com a esquerda (sobretudo a petista, de peso e expressão inquestionáveis), preferindo criticá-la por "ser esquerda demais". Terá como mudar o discurso e reconstruir relações mais adiante, se e quando o processo político avançar, para então poder atuar com ao menos um "eixo de esquerda"?

O PPS afirma que é preciso ter condições de dirigir a sociedade e governar, não somente chegar ao governo. Recusa-se a participar de operações políticas estreitas, "apenas com a esquerda". Quer ser o animador de um amplo leque de forças favoráveis à mudança. É um discurso avançado, que toca no calcanhar de Aquiles de toda e qualquer prática de esquerda no mundo de hoje. Mas a essência da idéia vale sobretudo para o próprio partido. Terá ele como agir em sintonia com este discurso? Seu candidato à Presidência é um político que fez fama por ter a língua afiada e uma imagem de arrogância e auto-suficiência. Traz consigo um ideólogo bem-pensante mas sem contato com a política viva e atraído demais pelas "soluções definitivas", bombásticas, categóricas. O partido parece sem ter como reagir a esta irrupção. Não consegue romper o círculo que o sufoca, de grave isolamento em relação à intelectualidade do país, o que compromete seus próximos passos.

Se quiser ter futuro, o PPS terá de acumular, no curto prazo, condições efetivas para se impor como força decisiva no campo da esquerda e da democracia. Sem resolver com audácia a questão da identidade, o partido não terá como agregar os quadros técnicos, políticos e intelectuais de que necessita para ganhar massa muscular, interferir com destaque na política nacional e quem sabe governar. E desperdiçará os ventos da Fortuna que o beneficiam no momento atual.

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Marco Aurélio Nogueira, é pesquisador da Fundap/SP e professor da Unesp.