
Onde Ciro Gomes perdeu a eleição (13/09/2002)
Não, não sou pessimista. Também não torço contra. Ao invés disso, continuo afirmando (embora com bem menos convicção e quase sem nenhum entusiasmo) que voto em Ciro Gomes para Presidente porque acredito que ele é de fato o candidato individualmente mais preparado e aquele que apresenta o melhor conjunto de propostas para mudar o Brasil para melhor.
Porém, quem tem alguma vivência eleitoral e não precisa dourar a pílula para agradar nem ao rei, nem a seus asseclas, seja por algum interesse pessoal ou mesmo só por diplomacia, para não ferir o ego hiperinflado dos membros do "petit comité" cirista, sabe que essa queda desenfreada do marido de Patrícia Pillar nas pesquisas é quase impossível de ser revertida. (Quase!)
É bem verdade que nem tudo está perdido, afinal faltam 20 dias para a eleição e muita coisa ainda pode acontecer, para o bem ou para o mal. Mas também é inegável que não dá para fechar os olhos para a realidade. A derrota de Ciro Gomes está sendo construída tijolo a tijolo por ele próprio. Assim como todos concordamos que o nosso presidenciável era desde sempre muito maior que o PPS, portanto era a ele exclusivamente que devíamos creditar todos os méritos pelo crescimento vertiginoso da sua candidatura, é igualmente correto o raciocínio de que uma eventual derrocada terá um só responsável: o próprio candidato.
Ciro Gomes começou a perder esta eleição nas campanhas municipais de 2000. A iniciar por São Paulo, ignorou solenemente a história, os candidatos e as decisões partidárias para fazer do PPS uma legenda hospedeira do seu projeto pessoal. Afinal, Ciro e Mangabeira Unger, feitos Dom Quixote e Sancho Pança, saíram por aí lutando contra moinhos de vento e sonhando conquistar o mundo. Com um projeto prepotente e personalista, um ufanismo requentado e mal calibrado, uma linguagem rebuscada e idéias salvacionistas, a dupla entronou-se num castelo de areia sem levar em conta a força do vento e das marés.
Ciro Gomes não precisava de nada nem de ninguém, a não ser da sua figura imponente e de seu estilo empolado. Julgou ainda ter tirado a sorte grande duas vezes: ao encontrar numa atriz global a sua alma-gêmea e num professor de Harvard o seu cérebro-irmão. Chegou ao PPS como quem entra num ambiente hostil, sem fazer grandes concessões e, ao contrário, pregando a rápida substituição de um velho partido de quadros por outro novo, de massas. Enfim, a legenda (qualquer uma) era só a parte burocrática do negócio; e o PPS, simples moeda de troca: deram-lhe uma agremiação tradicional, simpática e limpinha, e ele nos daria votos, prestígio e a redenção. Assim estava escrito.
Mas Ciro Gomes, inadvertidamente, seguia a passos firmes na (des)construção do projeto do PPS. E começou a perder a eleição, por ironia do destino, justamente quando mais promissor parecia o seu horizonte. Achou que lhe bastava seguir com seu carisma, grandes idéias e boas intenções, um discurso ferino e afiado, o tempo de TV e uma equipe juntada entre parentes, conterrâneos, empregados e amigos mais próximos, para enfrentar os "interesses do mercado", das "elites", dos "barões" e ganhar a eleição.
Errou. Sobretudo, errou ao afastar-se do rumo natural da centro-esquerda para ressuscitar fantasmas e assombrações, de ex-colloridos a oportunistas da pior espécie. Errou ao aproximar-se de Martinez, de Fleury, de Roberto Jefferson, de Brizola, do PFL. Errou ao ceder às chantagens da Força Sindical e entregar a vaga de vice na chapa a Paulo Pereira da Silva. Errou internamente no PPS ao enfraquecer Roberto Freire e deixar que João Herrmann se julgasse fortalecido. Errou quando trouxe das cinzas o velho ACM. Errou quando trouxe das cinzas o ex-ministro Cabrera, peça do jogo malufista em São Paulo. Errou. Errou tanto que até o próprio Fernando Collor, tendo toda a corja reunida, viu-se no direito de estrilar.
E Ciro abusou do direito de errar. Declarou: "o mercado que se lixe", quando dele se esperava equilíbrio e sensatez. Atacou de burro um ouvinte de rádio só por ter arriscado uma pergunta mais incômoda. Comprou briga com jornalistas, simples operários da notícia, quando queria atingir seus patrões. Faltou com a verdade repetidas vezes, ainda que em assuntos irrelevantes, como o fato de ter ou não estudado a vida toda em escolas públicas.
Ciro protagonizou ainda uma das cenas mais esdrúxulas da história política brasileira: o beija-mão com ACM. Meteu-se numa polêmica desnecessária com o estudante negro em Brasília, que desrespeitou a regra de um debate, quando tal função caberia simplesmente ao mediador. Reduziu a pó toda a imagem positiva obtida até então do affair com Patrícia Pillar ao cometer uma terrível gafe machista. E por aí foi, num terreno pantanoso, com a língua solta e a sutileza de um elefante numa loja de cristais.
Ciro Gomes errou a ponto de transformar José Serra num sujeito quase simpático. Desprezou o marketing e o profissionalismo da campanha. Perdeu-se na hora de decidir se posaria de vítima ou revidaria na mesma medida. Demorou para responder aos ataques (previsíveis) dos tucanos e, quando o fez, exagerou a mão. Sua tropa-de-choque abandonou o discurso político e partiu para o linguajar mais chulo: fulana é "mal amada", beltrano merece "tomar porrada". Baixou o nível. Caiu na armadilha do adversário. Jogou na lata do lixo a credibilidade de 80 anos da tradição do PCB/PPS em oito dias de exposição na TV.
Ciro Gomes parece cada vez mais distanciado do PPS, mas o PPS insiste em seguir com Ciro. Até por dever ético. Acreditamos nele. Até quando? Depende só do candidato e dos rumos que ele der à sua campanha. Das intenções e do caráter das pessoas que o cercam e das propostas que se constróem em torno da tal Frente Trabalhista. Da segurança que o candidato nos transmite e da confiança que o eleitorado possa ter em nós, não como opção "anti-Lula", mas como alternativa de mudança para o Brasil. Mas, afinal, o que será um hipotético Governo Ciro? O que podemos esperar? O brasileiro precisa de uma resposta convincente.
Maurício
Rudner Huertas, jornalista, é coordenador da ONG Vergonha Nunca
Mais!, pela ética na política, secretário de Comunicação do
PPS/SP e presidente municipal da Juventude do PPS/SP