
Onde o PPS perdeu a eleição (18/9/2002)
O rei está nu! É incrível como dizer o óbvio pode causar tanta polêmica!... Não, não busco "culpados". Nem entreguei os pontos e muito menos virei a casaca. Sou Ciro, em primeiro ou em último lugar nas pesquisas (afinal, eleição não é loteria), e até me sinto mais à vontade para reiterar isso após outra queda acentuada no Ibope, desta vez com Garotinho passando para terceiro, Serra isolado em segundo e Lula disparado na dianteira, mas não abro mão de fazer a crítica para tentar retomar o rumo certo enquanto ainda há tempo e esperança. Inaceitável é fazer Política como o avestruz, escondendo a cabeça no buraco.
Quando escrevo "Onde Ciro perdeu a eleição" e questiono ações (ou omissões) do candidato da Frente Trabalhista, é justamente para tentar recuperar o eixo da campanha, a coerência da nossa proposta e o entusiasmo perdido. Diagnosticar os erros do nosso presidenciável não é uma tentativa de eximir a culpa de ninguém - todos nós, militantes, candidatos, assessores, simpatizantes e dirigentes do PPS temos a nossa parcela de responsabilidade pelas falhas cometidas até então. O que não dá, desculpem-me os mais sensíveis, puritanos, demagogos ou hipócritas, é para esperar a consumação da tragédia e vir depois com aquela conversa de "eu já sabia...". Tampouco podemos apregoar uma vitória de Pirro (rei que morreu estupidamente, após vencer sangrenta batalha), consagrada por Machado de Assis com o bordão do personagem Quincas Borba: Ao vencedor, as batatas!.
Não nos interessa (pelo menos não à maioria do PPS) o poder a qualquer custo. Se queremos chegar lá, façamos por merecer. E se pregamos um governo diferente, vamos pelo menos tentar cometer erros novos. O problema é que Ciro e o PPS erramos feio. Caímos na armadilha previsível do adversário e qualquer reação improvisada agora parecerá em vão. O nosso exército brancaleone se deu conta de que está no meio da guerra e não sabe mais se recua ou se avança, nem consegue distinguir o inimigo no fogo cruzado. Mas o que não podemos neste momento (e estamos fazendo) é adotar a tática do desespero e partir para o "abraço do afogado". A eleição se encerra em 6 de outubro, porém não termina aí a nossa responsabilidade social e político-partidária. Ao contrário. Nessa data é que começará de fato a missão mais difícil: garantir solidariamente a governabilidade do país e definir qual o papel do PPS diante do próximo governo, seja ele comandado por Ciro, Serra ou Lula.
Seria cômico, se não fosse trágico, o comportamento de certas "sumidades" partidárias que (com o perdão do trocadilho infame) "sumiram" quando mais se esperava delas - e desaparecem assim, invariavelmente, no momento de tomar decisões difíceis, assumir responsabilidades e definir os rumos do PPS e das nossas candidaturas; mas ressurgem de tempos em tempos para ditar regras, descobrir a pólvora e reivindicar a posse do partido por hereditariedade, com a mesma cantilena rançosa há décadas.
Certamente é inoportuno discutir agora o futuro do PPS. Nem é o caso de entrar em detalhes. Mas é importante deixar claro que já saímos derrotados desta eleição, seja qual for o resultado das urnas. Derrotados pois não tivemos maturidade e competência para vencer os obstáculos lançados em nossa trajetória. Derrotados, mas não definitivamente, se soubermos aprender com os nossos erros.
Se tivermos humildade suficiente para confessar que, ao contrário do que pensávamos até pouco tempo atrás, já não temos prontas e acabadas as soluções para todos os problemas da humanidade. Se pudermos reconhecer que, embora em nossas reuniões teóricas, no estilo do velho Partidão, podíamos "resolver" todos os conflitos internacionais, decretar a paz mundial e a unidade dos povos, na prática fomos incapazes de coisas bem menos complexas, como por exemplo ajudar a formatar um simples programa de governo para o nosso candidato e conseguir convencer o eleitorado das nossas boas intenções.
Ainda somos um partido pequeno porque pensamos pequeno. E, pior, agimos com pequenez. Não consolidamos uma união nem sequer quando Ciro disparou nas intenções de voto. Permitimos que as lutas internas da Frente vazassem publicamente (afinal, temos por aqui especialistas na plantação de futricas e intrigas na imprensa), expondo a todos as nossas fraturas e fragilidades.
Concordamos, ainda que involuntariamente, que o nosso líder maior, o senador Roberto Freire, fosse execrado, jogado para escanteio, atropelado pelos próprios "aliados" e ficasse repetindo sozinho um discurso que era (ou deveria ser) do coletivo partidário, aprovado em documentos oficiais, contrário (por exemplo) à aproximação com ACM e o PFL. Mas prevaleceu a tese de que os fins justificam os meios, então às favas os escrúpulos de consciência, pois todos só queriam se esbaldar no Planalto.
Vozes dissonantes foram caladas à força. Forjaram-se congressos, decretaram-se intervenções. A base do partido, formada sem nenhuma identidade entre si ou com a história do PCB/PPS, e tendo a densidade de uma bolha de sabão, resistiu o quanto pôde. Com a queda de Ciro nas pesquisas, a deserção tornou-se inevitável. A direção partidária, como era de se supor, composta por parlamentares e assessores, esvaziou-se e cada um saiu na tentativa de salvar a sua pele. O partido tornou-se refém do inchaço pós-Ciro. Candidatos majoritários e proporcionais foram abandonados à própria sorte. Enfim, até 6 de outubro, dias piores virão.
O filme é repetido. Em 2000, nas eleições municipais, tudo isso já havia acontecido, em escala menor e regionalizada. Lembro-me (e não esquecerei jamais) da promessa cumprida de Ciro: não pisaria em São Paulo nem moveria um dedo para ajudar os candidatos a vereador do PPS, muito menos a chapa majoritária formada por Luiza Erundina (prefeita) e Emerson Kapaz (vice).
No clima de fim-de-feira que foi o término daquela eleição, estávamos lá apenas três ou quatro gatos pingados, fiéis ao partido. Estes que hoje ressurgem das cinzas com postura vestal, censurando-me por expor a minha opinião sincera no artigo "Onde Ciro Gomes perdeu a eleição" e cobrando otimismo e entusiasmo, não estavam lá. Pior: eu tenho certeza do meu voto em Ciro, apesar da queda nas pesquisas e ainda que eu manifeste duras críticas à condução da campanha, e continuarei aqui no PPS em 2003 para ajudar a reconstruir o partido. Mas, e quanto a estas madalenas, estarão nos braços de quem no próximo governo?
Aliás, 2003 é o ano do PPS. É o ano do 23, sem os "zeros" que deixarão o partido. Bem, nem tudo está perdido.
Maurício
Rudner Huertas, jornalista, é coordenador da ONG Vergonha Nunca
Mais!, pela ética na política, secretário de Comunicação do
PPS/SP e presidente municipal da Juventude do PPS/SP