PARA A OPOSIÇÃO PENSAR |
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| Em nosso país
segue forte a tradição cultural de nos imaginarmos
isolados do mundo, a despeito da tal globalização, da
TV, da Internet, do FMI e da cotação diária do dólar.
Imaginamos ainda que nossas questões se resolvem por
aqui mesmo e no espaço que separa nosso nariz de nosso
próprio umbigo. Nada demais, pois têm a mesma
tradição outros países de dimensão continental como o
nosso: russos, indianos e chineses também se imaginam um
pouco autarquias nacionais em meio ao tumulto global. Essa percepção, no entanto, nunca foi verdadeira, muito menos hoje podemos imaginar que estamos isolados do mundo, aqui protegidos entre a grande floresta amazônica e o vasto Oceano Atlântico. Ao contrário, talvez seja já o tempo de introduzirmos em nossa agenda política de interlocução popular maior ênfase nas relações internacionais e, especialmente, darmos atenção maior ao que está acontecendo em nossa imediata vizinhança na América Latina. Seja porque o papel do Brasil deva ser de suma importância para o continente, seja para tirarmos lições críticas de experiências inquietantes ou estimulantes em ocorrência atualmente nos países vizinhos. 0 fenômeno do caudilhismo populista repetiu-se em muitos países numa mesma fase histórica. Sem malha de seguridade social, sem terem resolvido problemas ancestrais de distribuição de renda, com estruturas produtivas frágeis, esses países foram quase todos levados pelo receituário de Washington e pelo novo ciclo internacional de retração dos capitais estrangeiros ao colapso e a momentos de grande tensão social com imediato reflexo político-institucional, função de um cicio grave de estagnação econômica e de agravamento da exclusão de massa. Com especificidades e tempos discretamente diferentes, pode-se inferir: com invariável semelhança, é esse o itinerário peculiarmente comum que tem marcado a vida neste mundo latino-americano. Dá para tirar daí uma regra? Em política é sempre temerário procurar estabelecer regras para variáveis tão amplas, mas, se não podemos afirmar uma sentença científica para quantidade de exemplos de itinerários tão semelhantes em fases históricas tão parecidas, vale a pena pensarmos em uma tendência forte para avaliarmos não mais solitariamente nossas questões nacionais. Talvez o "exemplo" de experiências de povos irmãos na latinidade, e na contigüidade territorial, além de área preferencial de influência da grande potência do norte, possa servir para guiarmos uma reflexão sobre a atualidade brasileira à luz do que vem acontecendo em outras nações, que mais cedo chegaram ao momento parecido com aquele em que hoje estamos. E aí vamos encontrar basicamente, em meio à tragédia comum da estagnação, do aguçamento do desemprego de massa, da instabilidade na equação do financiamento externo, de nossos comuns e graves desequilíbrios, dois blocos de países que põem o Brasil diante de uma encruzilhada. De um lado o momento difícil, para ficar num eufemismo, por que passam os povos peruano, colombiano e venezuelano. De outro o itinerário que vêm tentando os mexicanos, chilenos e argentinos. Os dois blocos assim reunidos, mesmo reconhecendo suas peculiaridades, são símbolos contrapostos de duas tendências ainda não inteiramente afirmadas. De um lado o colapso institucional, a negação, quando não o colapso das instituições democráticas, a guerra civil. De outro, uma abordagem política democrática afirmativa para a tentativa de interrupção do itinerário de tragédia econômico-financeira e social que representa de forma inequívoca, a quem não for burro ou desonesto, a inviabilidade de se guirmos obedientes e passivos na prática do receituário neoliberal. A diferença aqui claramente se dá na cultura de dois valores, um filosófico, o outro instrumental: o zelo disciplinado pela prática da democracia em todas as suas linguagens e contradições, e a capacidade de convergência das sociedades nacionais, especialmente de seus blocos ideológicos de esquerda e de centro democrático ao redor de uma tática comum. Aonde a impaciência vira intolerância, aonde a indignação contra a corrupção e a injustiça social cedeu espaço ao personalismo indignado e populista, o que se assistiu e está assistindo é a volta do autoritarismo, de um neopopulismo, da desagregação e da violência como linguagem política. E, pior, nada de alternativa no marco da economia política, nada de esperança na construção, mesmo em ambiente difícil, de caminhos próprios, ainda que mundialmente integrados, nada sequer de recuperação da capacidade de nos autodeterminarmos enquanto nações livres, hoje todas subjugadas ao interesse mesquinho da especulação financeira internacional. No Chile, socialistas e democratas cristãos, apesar de todo o trauma e de uma transição que a um não-chileno possa parecer excessivamente longa e tolerante com o passado ditatorial, vai-se, em paz democrática, a pouco e pouco se buscando um caminho alternativo. Na Argentina, a esquerda reunida na Frepaso superou preconceitos e dogmas e juntou-se à União Cívica Radical, na tentativa de vencer as eleições e devolver a esperança aos irmãos daquele país. No México, PAN da esquerda de Cárdenas entabula interessante diálogo com o PRD mais de centro de Vicente Fox. E aí, companheiros brasileiros da oposição, para que rumo da encruzilhada queremos ajudar a encaminhar nosso sofrido Brasil? |