O DESAFIO DA POBREZA |
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| Os atuais titulares
da cena política brasileira pensam mesmo que governam
uma sociedade de imbecis incapazes de ajuizar sua
demagogia de quinta categoria. O tema agora é abolição
da miséria. E como se a miséria de massa no Brasil não
fosse conseqüência de um atávico pacto de elites
egoístas que essa mesma gente hoje replica fielmente.
Neste país vige a pior concentração de renda do
planeta. O número é insultuoso: entre nós, os 10% mais
ricos acumulam 29 vezes o que possuem os 40% mais pobres.
E isso nem é obra do acaso nem precisa continuar assim.
Há explicações que esclarecem as causas desse abuso
elitista e encaminham pistas para uma reversão forte
dessa tragédia sócio-econômica e política em que
vivemos. A renitência escravista nos lega um desapreço ético pelo trabalho. Quanto mais simples o trabalho, menos respeito lhe devota, por média, nossa sociedade. No país de maior estoque de terras férteis desocupadas do planeta, vai-se chegar ao mitológico século XXI sem uma reforma fundiária para valer, que encerre a crônica da terra com fator de status e base do poder oligárquico. É a renitente memória da terra entregue a poucos nas capitanias hereditárias. O nacional-desenvolvimentismo do pós-guerra deliberou por uma modelagem de Estado e de desenvolvimento em que os recursos, o crédito e as energias políticas públicas se concentraram na construção da infra-estrutura e na geração de uma plataforma industrial complexa. Ao tempo em que mais uma vez se postergaram as tarefas emancipatórias das maiorias, deixando-se de lado o financiamento de uma educação pública libertadora, de uma plataforma sanitária capacitadora, de uma malha de seguridade social respeitável e equalizadora. Crianças, idosos e mulheres, não sendo engrenagens da "máquina produtiva", foram relegados a planos inferiores na atenção de nossa "estratégia" de desenvolvimento. Fundado o modelo em uma crônica de déficits, saímos do endividamento a baixo custo para o financiamento doentio da inflação alta e daí, mais contemporaneamente, para o endividamento público irresponsável. Em todos os casos, o setor público pondo-se como um opressor do nível de poupança da sociedade brasileira. E sem poupança, e sem instituições que a vinculem à produção, chegamos à crônica presente da estagnação que incrementa a miséria, concentra renda, amplia brutalmente a exclusão. Combater a miséria a sério é montar um novo modelo de Estado e de desenvolvimento. É recuperar a idéia de projeto nacional de desenvolvimento. E as premissas desse novo modelo devem ser bem o oposto daquilo que os atuais poderosos impõem ao país: em vez da ilusão de basearmos nossa estratégia de desenvolvimento em especulação financeira internacional, unir a nação numa estratégia de elevação do nível doméstico de poupança. No lugar da hegemonia ao fiscalismo financista estúpido em vigor, um realismo fiscal enriquecedor das energias públicas e claramente comprometido com a produção e com o investimento em gente. Sem crescimento econômico, tudo o que se falar sobre combate à miséria é papo furado politiqueiro ou descabida ingenuidade política, uma vez que todo ano 1 milhão e meio de jovens chegam ao mercado de trabalho em busca do primeiro emprego, e que, forçada a competir, nossa economia ganha produtividade a cerca de 3% ao ano (e isso aumenta a quantidade de desempregados). Só crescer, entretanto, não basta, é preciso fazê-lo na direção certa e de maneira a desconcentrar a renda. Sanear as contas públicas, inclusive previdenciárias, é premissa não só da construção da poupança, mas também condição para que se deflagre a mais acelerada forma de distribuir renda no Brasil: elevar em bases reais o valor do salário mínimo e criar instituições que garantam a efetiva participação dos trabalhadores no resultado das empresas. Uma reforma da estrutura fundiária casada com uma política agrícola que supra as necessidades de financiamento, assistência técnica e comercialização para os pequenos produtores, e uma escola pública de excelência aberta aos pobres demoram um pouco mais, mas com certeza serão providências a serem adotadas por quem se entregue com sinceridade à tarefa de ajudar a população a libertar-se da miséria. Pode ser que dessa impostura toda resulte algo bom na direção de não deixarmos morrer este debate nem que ele se perca na fogueira de vaidades e demagogia em que foi inserido. E aí o Brasil possa finalmente achar um caminho para enfrentar essa perversão que é a miséria de massa e a miséria política que nos dominam e envergonham. |