O sotaque de Mangabeira Unger  

Leio nos jornais que Roberto Mangabeira Unger, o "guru" do presidenciável Ciro Gomes, "teve de ser contido" para que não atacasse o presidente nacional do PPS, senador Roberto Freire, na sua postura absolutamente corajosa, séria e coerente de defender os princípios históricos do seu partido contra as investidas predatórias e oportunistas do PFL à candidatura do ex-ministro.  

Entendo perfeitamente o que Mangabeira sentiu, afinal eu e outros companheiros do PPS também precisamos nos conter cada vez que ouvimos ou lemos seus argumentos de almanaque para justificar uma aliança com o que há de mais fisiológico, atrasado e oligárquico na política brasileira. Precisamos nos conter quando vemos Mangabeira Unger dizer que todos os problemas do Brasil se resolvem num "governo de auto-ajuda", ignorando a complexidade das mazelas do país e passando como um trator sobre as nossas tradições e a nossa política. Voilà! Se a solução é a "auto-ajuda", então deixemos Ciro e Mangabeira de lado e vamos eleger Paulo Coelho e Lair Ribeiro, dois especialistas no tema. Risível.  

Quando há dois anos Mangabeira resolveu abandonar os livros em Harvard e aventurar-se pelas ruas de São Paulo, com seu figurino de pastor protestante, discurso professoral e a idéia fixa de ser prefeito de São Paulo sob as bençãos messiânicas de Ciro Gomes, foi avisando preventivamente que falava com sotaque inglês, mas pensava em português; ao contrário de muitos de nossos governantes, que, segundo ele, falam português mas pensam com sotaque dos EUA. Retórica pura.  

Prova agora que politicamente seu idioma é o "pefelês", a língua dos malandros e oportunistas. Ao menos é essa gente que ele se esforça para atrair para a campanha do seu golden boy. A confusão política na cabeça privilegiada de Mangabeira talvez se explique: criado e formado nos Estados Unidos, posa como maior dos brasilianistas sem entender de fato o país. Quando a moda era ser marxista, Mangabeira detonava Karl Marx. Quando até o PCB abandonou a foice e o martelo, Mangabeira filiou-se ao partido idolatrado por velhos comunistas. Critica os banqueiros, mas virou assessor de um. Quer ser uma alternativa ao continuísmo, e une-se ao PFL. Detona a política paulista com um cearense de Pindamonhangaba. Despontou na política com a proposta de ser "moderno" ciceroneando Leonel Brizola. Hoje quer unir os três, e o que mais vier, contra FHC - moinho de vento satanizado pelos nossos simpáticos Ciro e Mangabeira, Dom Quixote e Sancho Pança da política nacional.          

Convencionou-se que Mangabeira é um filósofo, um intelectual de ponta, e, como tal, inatacável em seus conceitos, idéias e teorias mirabolantes, distanciadas da realidade tupiniquim como o diabo da cruz. Longe de mim querer desqualificá-lo como pensador da sua época, que tem lá o seu estilo e o seu valor, mas talvez ele seja melhor como assessor do Banco Opportunity do que como político, onde atua com a sutileza e a destreza de um elefante numa loja de cristais.   

Acompanhei Mangabeira Unger em suas aventuras e desventuras paulistanas, como pré-candidato a prefeito do PPS. Infelizmente, partido no qual entrou pela porta dos fundos. Achou que bastaria ter um "pistolão" para se credenciar à disputa. Quando viu que o jogo partidário tinha suas próprias regras, mandou às favas os escrúpulos e saiu promovendo filiações de balaio na tentativa desesperada de ganhar a convenção. Posicionou-se contra o deputado Emerson Kapaz, então pré-candidato a prefeito do PPS, defendendo o apoio à eleição de Luiza Erundina. Quando, enfim, o PPS coligou-se à ex-prefeita, começou a defender o apoio a Marta Suplicy. Eleita a petista, com o nosso apoio no Segundo Turno, onde estava Mangabeira? Onde está Wally?    

Mangabeira confunde seriedade com sisudez. Fala com o mesmo tom agressivo e a linguagem rebuscada a uma platéia de operários, empresários, estudantes ou aposentados. Quando o levei a um Clube da Terceira Idade na zona leste, portou-se como um Lobo Mau à frente das amendrontadas vovozinhas. Dono de uma personalidade singular, ignora o que seja uma conversa de bar, um pagode ou uma partida de futebol. Prefere fazer duetos de violoncelo com o filho nas horas vagas ou trancar-se na biblioteca, onde escreve seus textos em pé, por não controlar nem a própria agitação. Não que isso o diminua em nada, é óbvio. Porém, demonstra que não basta ser um teórico renomado para torná-lo um "salvador da pátria", título que ele e Ciro renegam, mas que vestem sob medida no cotidiano. Mangabeira não é popular. Pior: está distanciado anos-luz das expectativas e anseios do povo brasileiro, que nas teses mangabeiristas não passa de um norte-americano subdesenvolvido.   

  Mangabeira nos faz lembrar o personagem do excelente ator Peter Sellers no filme "Muito Além do Jardim". Após décadas enclausurado numa casa cuidando das plantas, o jardineiro Mr. Chance é forçado pelas circunstâncias a sair às ruas e interagir com um mundo totalmente estranho e arredio. Tem um comportamento e uma linguagem tão peculiares, que as suas limitações ganham aura de superioridade. Pois é assim que vejo Mr. Mangabeira no meio político, se bem que às vezes o filósofo mais parece Peter Sellers em outro de seus sucessos: "Um convidado bem trapalhão".        

As atitudes inconsequentes e irresponsáveis de Mangabeira, como ao colocar em xeque o presidente do seu partido, senador Roberto Freire, e tentar impor o PFL na coligação de apoio a Ciro Gomes (como se isso não fosse só mais uma manobra diversionista dos adversários), dão margem para que figuras desprezíveis da política nacional, como ACM, Luiz Antonio Fleury, Roberto Jefferson e outros do mesmo quilate venham querer dar lição de moral no PPS. Moral? Mas que moral?  


Maurício Rudner Huertas, jornalista, é coordenador da ONG Vergonha Nunca Mais!, pela ética na política, secretário de Comunicação do PPS/SP e presidente municipal da Juventude do PPS/SP